O Quadrado negro de Malevich pontua uma intensa ponderação da arte, e do papel que a imagem ocupa na representação visual. Já antes da realização e do pensamento sobre esta obra o artista circulava uma questão de peso, considerava que a representação figurativa não se cingia a uma mera cópia do real, mas sim a uma transposição de algo do foro real para o representativo, ou seja, do que é representado, o dito referente, ecoam na sua figura ficcionada, elementos que a ele remontam, não só visualmente, mas há algo da essência do referente que é arrastado para a sua representação.

O Quadrado Negro, coloca então a questão da presença de elementos do real, sem o figurativismo. As noções de perspectiva, ou relativas a uma ordem estabelecida, a um funcionamento do real são aqui abolidas. O negro tem em si a impossibilidade da representação de elementos do real, mas simultaneamente parece absorver e em si compreender tudo, como não existe representação, não existe referente. Mas esta ausência, esta impossibilidade de representação do real através do negro, sugere que algo imaterial do real está presente na obra, apesar do negro anular a forma.

Acerca da anulação das noções de espaço, e de uma ordem visual que deveria constituir as representações Malevich diz  que destruiu o anel do horizonte, apela ao exterior «saí para o branco, segui-me e vogai, camaradas aviadores no abismo, estabeleci os semáforos do suprematismo». O artista deixa assim claro que a orientação num espaço das suas obras nada tem a ver com a presença física usual, o mundo criado passa a ser visto de cima, sem peso ou orientações predefinidas, as formas voam numa realidade atmosférica. Há um novo espaço infinito, onde o branco figura como um abismo.

A impossibilidade de representação explicada por meio de representação é o alto paradoxo que cria o suprematismo. Esta impossibilidade da pintura, pela via figurativa visto que o negro tudo absorve, é expressa através de pintura. É sobre este quadrado negro que se constitui uma via de comunicação suprematista.

Este novo universo representativo derivado da impossibilidade da pintura, necessita da definição os seus elementos. O branco é pensado por Malevich como o mundo do « nada libertado», o «mundo do sem objecto», é neste espaço novo que se compõem as formas suprematistas. O quadrado negro transmuta-se para um elemento plástico deste novo mundo, que parece flutuar neste sitio onde não existem linhas do horizonte nem forças da natureza, o quadrado nele paira, e nós podemos observar esse mundo de cima, sempre de cima, porque nós, que somos a natureza, não podemos penetrar este mundo que foge á nossa realidade figurativa.

Defini á pouco o quadrado como um elemento plástico deste novo mundo, mas não é um elemento como estamos habituados a definir, é um elemento sem referente, sem objecto, Malevich define-o no seu sistema como sendo aquilo que resta, e é subtil na forma comum, a sensação. Nascem formas, que na realidade não são formas, mas sim um jogo de sensações traduzidas por figuração geométrica. Força da libertação do nada é pensada pelo artista nos diversos textos que escreve ao longo da sua vida acerca deste novo sistema representativo.

C. Nascimento

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