Temos imagens, temos figuras, temos vultos na sua forma final, e sempre se assume que assim foram desde o inicio dos seus tempos. Ora nada na natureza, nem nada que dela pareça fugir (a humanidade) surge preparado, o fruto não pendura amadurecido, a flor não brota aberta, o ser não é instantâneo. Mas essas suposições do imediato são ainda mais fáceis de realizar relativamente à mente e adjacentes processos humanos.

Em qualquer pequeno texto relativo à figura de Camus presenciamos então essa categorização e finalização de um «produto», pequenas etiquetas tentam principiar a explicação de alguém complexo, não mais que os restantes, não se trata aqui de superioridade, mas sim da oportunidade, e até necessidade de expressão trazida até nós por este homem. Mas a via de compreensão é mais complexa, lenta e gratificante.

O processo de criação da consistência de Albert Camus é-nos felizmente acessível através dos seus cadernos, sempre escritos ao longo da sua vida, compostos de pequenas anotações, parágrafos, frases soltas, esquemas…uma mente em rabiscos, compilada em papel, uma composição de palavras que geram a imagética que Camus defendia como a criação artística. Definia-se como artista e não filósofo por trabalhar com palavras e não ideias. Louvava o romancista, o verdadeiro criador, não descartando qualquer outra expressão artística, mas pegando na linguagem verbal (vá escrita neste caso), como a veia primordial de comunicação de imagética, de uma narrativa que torne explicitas as ideias do ser que pondera. A arte era para ele algo que deveria comover o maior número de seres, ser um factor de unidade que tornava possível a partilha do absurdo.

Voltando à minha tentativa inicial de explorar o seu processo, o primeiro caderno, vai de Maio 1935 a Setembro de 1937, entre os seus 22 e 29 anos, ou seja começa cinco anos após ter sido diagnosticado com tuberculose inicia uma necessidade expressiva. Menciono este facto porque a sua proximidade constante da morte parece ser algo com peso para o desenrolar do absurdo, da fome constante por novas experiências, da disparidade entre a necessidade do ser humano ter um propósito, e a falta de encontro de um que seja.

Este primeiro caderno, Esperança do Mundo, é a exploração total, tanto introspectiva como exterior a si. As questões colocadas são da mais larga variedade, é quase um manifesto do estado mental actual. Muitas das pequenas noções e frases soltas soam ao que mais tarde vai ser colocado em narrativas, e eventualmente o Mito de Sisífo, o seu ensaio sobre o absurdo.

C. Nascimento

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