Foi sem querer que descobri The Lady of Shalott (1888), de John William Waterhouse. A descoberta foi fugaz, sem tempo para a saber de cor. Sem querer esqueci a sua existência. Detalhes surgiam; cores conjugavam-se com formas, formas nunca precisas. Havia ficado o trágico sentimento cravado no rosto – num rosto por mim desconhecido. E quando o reencontrei não ficou o como, ficou a mesma sensação de quando o encontrei pela primeira vez – a de um desassossego bom.

A partir do momento em que esta busca terminou, iniciei outra – aquela que ainda hoje não concluí.

Em 1832, Alfred Tennyson, poeta inglês, publica o poema The Lady of Shalott, que viria a ser perpetuado, em tela, por alguns pintores seus contemporâneos. John William Waterhouse pinta, nas últimas décadas do século XIX, aquela que para mim se tornou o objecto de uma busca quase inconsciente.

Em quatro partes, Tennyson conta a história de um amor que tem tanto de trágico como de impossível. Dos versos de Tennyson – que se inspira numa lenda arturiana – é-nos dado a conhecer uma misteriosa mulher, que vive isolada numa torre na ilha de Shalott, cercada por um rio que flui para Camelot. Amaldiçoada, esta mulher está destinada a olhar para o mundo exterior através do reflexo de um espelho. Certo dia, surge, no reflexo, um belo cavaleiro – Lancelot. Não resistindo, Lady of Shalott olha-o directamente. O espelho quebra-se e Lady of Shalott sabe que a maldição cairá sobre si. Como punição terá de descer o rio e cantar uma derradeira canção. Antes de chegar a Camelot morrerá.

A punição é o momento escolhido por John William Waterhouse na concretização de The Lady of Shalott.

A cena é inspirada nos seguintes versos:

And down the river’s dim expanse
Like some bold seer in a trance,
Seeing all his own mischance –
With glassy countenance
Did she look to Camelot.
And at the closing of the day
She loosed the chain, and down she lay;
The broad stream bore her far away,
The Lady of Shalott.

A composição naturalista de The Lady of Shalott consegue captar o desespero e a sensação de isolamento da personagem. O rosto da figura – agora conhecida  – deixa transparecer o medo mas também a resignação; é um rosto que conhece e aceita o seu destino – Lady of Shalott sabe que só lhe resta esta última viagem e, sem ter como fugir, entrega-se a ela. A simultaneidade de sentimentos – o medo e a resignação – fizeram com que não me esquecesse de The Lady of Shalott.

FlaMo

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