Em meados do século XX estreia um filme que rasga com os estereótipos cinematográficos europeus, e talvez mundiais. Black Narcissus emerge da parceria britânica entre Michael Powell e Emeric Pressburger e choca o público – um público recém-saído de uma guerra opressiva em todos os sentidos – e fascina os críticos. Ambas as reacções tiveram o mesmo ponto de partida: a cor; a cor extravagante que palpitava em cada cena; a cor – só possível através da mestria das novas técnicas que mudavam a produção cinematográfica (apesar de já serem utilizadas em Hollywood, nos westerns e melodramas), dando-lhe possibilidades tão vastas tal como a própria utilização cromática nesta longa-metragem. Por isto, mas não só por isto, Black Narcissus, de 1947, é aclamado, lembrado e considerado influência por alguns realizadores, entre eles Martin Scorsese e Francis Ford Coppola.

A narrativa de Powell e Pressburger constrói-se a partir da utilização do Technicolor – elemento, aliás, essencial -, e oferece ao espectador uma viagem através dos sentidos, apoiando-se numa cinematografia – por Jack Cardiff – composta por cores vibrantes, tão essenciais como as próprias personagens. Baseado na obra literária de Rumer Godden, Black Narcissus é escrito, produzido e realizado pela dupla britânica (Powell e Pressburger) e pode ser descrito como um híbrido de géneros: desde sátira colonial e religiosa a uma filme melodramático. É impossível definir esta obra do pós-guerra. Black Narcissus é tudo isto e mais.

Durante os 96 minutos o espectador é levado numa espiral, sempre crescente, de tensão, onde a moral religiosa e uma das suas mais directas oponentes, a consciência sexual, se confrontam. Toda a narrativa centra-se na relação conflituosa entre Sister Clodagh – a pura, jovem e pálida madre superiora da congregação – e Sister Ruth – a personificação da revolta sexual, urgente, quase demoníaca. O auge do confronto é atingido a 10 minutos do fim, e neste momento vemos um filme de terror.

O jogo de contrastes é uma constante. A paleta suave e etérea do hábito das freiras e o branco das paredes exteriores do palácio, contrastam com os murais de cores vibrantes do interior – pinturas que revelam a verdadeira natureza do edifício -, e com toda a cinematografia do filme, de uma riqueza cromática sem igual.

Filmado em estúdio, Black Narcissus explora a paisagem dos Himalaias em cenários ingleses, que conseguem transmitir uma perturbante atmosfera envolvente, carregada de uma carga erótica subtil, onde um sentimento de desconforto e  uma tensão constante são admiravelmente transportados para o filme também em forma de ventanias persistentes!

FlaMo

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