A certa altura os artistas começam a tomar consciência da condição de bidimensionalidade a que a pintura está circunscrita. Quando é que isto aconteceu? Porque? Quais são as consequências?

Cada vez mais, e já há algum tempo, a arte contemporânea é uma reflexão do seu próprio problema. É um problema bidimensional? (para a pintura). Fazer arte é pensar sobre arte, pensar na solução para o problema que é a arte. No caso da pintura, o tomar consciência da sua bidimensionalidade é tomar consciência do problema que é a arte, na altura em que este seria ainda um problema. Com o correr do tempo observamos um desejo profundo, cada vez mais intenso, de penetrar, cada vez mais profundamente, na natureza da obra. Assim, o processo é a obra, a obra é o questionar. Tão pouco se sabe sobre a derradeira solução para o problema como se sabe o sentido da vida. Como no perguntar reside a filosofia, no processo artístico reside a arte. Diz Greenberg que a planificação e bidimensionalidade são a única condição que a pintura não partilha com nenhuma outra arte, e assim, a pintura Modernista orientou-se a si própria no caminho da planificação e da bidimensionalidade, mais do que a qualquer outra coisa. É um processo talvez algo longo quando comparado com a velocidade das problemáticas de hoje, vorazmente enfrentadas, procuradas, ainda que possivelmente nunca solucionadas. Não podemos separar este problema de um outro que é a fotografia, a extrema adversária da pintura que a faz olhar finalmente para a tela, para o quadrado branco, que lhe começa subtilmente a retirar o medo do branco, o medo do vazio, o medo do bidimensional. Artistas que antes seriam enaltecidos pelas suas capacidades de fazer desaparecer a tela, e, no seu lugar, fazer surgir uma janela para o (i)rreal, começam então a aceitá-la e exaltá-la. A civilização do medo ao vazio vai aceleradamente conquistar o quadrado branco sobre a amada tela branca. O caminho para compreender como isto aconteceu, porquê e onde é que vai parar é, para mim, um caminho de descoberta impreciso, penoso, pesado, quase sempre incompreensível, quase sempre frustrante, mas sempre infinitas vezes mais divertido, mais recompensador, mais genuíno que todos os outros, é a minha busca de Deus, a minha espiritualidade, no sentido menos católico possível.

AlexandraCFer

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